sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

### - Desejos fracos. - ###

sexta-feira

Se você perguntasse a vinte pessoas de boa índole qual elas consideram ser a maior das virtudes, dezenove diriam ser o desprendimento. Porém, se perguntasse a qualquer um dos grandes cristãos da antiguidade, a resposta seria o amor.
Viu só o que aconteceu? Um termo negativo substituiu um positivo e isso é mais do que filologicamente importante. A ideia negativa de desprendimento carrega em si não a sugestão básica de se reservar as coisas boas da vida para os outros, mas sim de abdicar delas como se a nossa abstinência e, não a alegria dos outros, fosse o ponto importante. Não acredito que essa seja a verdadeira virtude cristã do amor. O Novo Testamento tem muito a dizer sobre autonegação, mas não sobre a autonegação como um fim em si mesma. Ele diz que devemos negar a nós mesmos e tomar a nossa cruz, para que possamos seguir a Cristo. E praticamente toda a descrição do que acabaremos encontrando se agirmos assim contém um apelo ao desejo.
Se a noção existente na maioria das mentes modernas de que desejar nosso próprio bem e sinceramente esperar encontrar contentamento nele é errada, presumo que essa noção veio de Kant e dos estoicos, e não faz parte da fé cristã. De fato, se considerarmos as inapagáveis promessas de recompensa e a admirável natureza das recompensas prometidas nos Evangelhos, poderíamos até achar que o nosso Senhor não considera nossos desejos muito fortes, e sim fracos demais.
Somos criaturas de coração partido, tentando nos divertir com drinques, sexo e ambições enquanto nos é oferecida uma alegria infinita; somos como uma criança ignorante, desejosa de continuar a fazer bolos de barro na favela, porque não consegue imaginar o significado do convite para umas férias na praia. Nos contentamos fácil demais.

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